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A NOSSA VELHA CASA

Por em 17 de setembro de 2009
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal

HUMBERTO PINHO DA SILVA

Quem, já entrado em anos, não se recorda da casa onde nasceu e foi criado? No correr da vida, a velha moradia, torna-se, por magia do tempo, numa saudade, onde as raízes mergulham, e as recordações de infância animam-se como se fossemos ainda meninos.

Aquelas velhas paredes de estuque e fasquio presenciaram a nossa puerícia, conheceram segredos e viram os angustiosos paroxismos dos nossos avós e pais.

Eram de cantaria, de amplas divisões e minúsculas saletas, com traves que estalavam no Estio e gemiam fustigadas pelas intempéries desabridas, em frigidíssimas noites invernosas.

Fossem de alvenaria ou pedra ensossa, essas casas velhinhas, tem alma, e enquanto viverem, unem a família, mesmo quando se dispersa e se aparta para paragens longínquas.

 A casa de meu pai tinha mais de duzentos anos. As janelas eram de guilhotina e o soalho, lurado, rangia a cada passada descuidada. Ao centro estava a escadaria. Tinha vários patins, um saguão e cave que dava acesso aos alicerces.casa de Humberto

Em menininho receava descer aos andares inferiores, que eram sombrios e visitados por ratazanas, que se esgueiravam ao mais leve ruído.

Cada salinha tinha história. Numa falecera a avó arrimada à imagem da Virgem; noutra perecera a avozinha Júlia, que ao entardecer rezava as Avé – Marias voltada para a igreja matriz.

 No amplo salão da frente, que tinha sacada gradeada, havia – dizia meu pai, – o piano de cauda, que pertencera à avó Sofia, que fora pianista e dava lições a meninas prendadas.

No topo das escadas, em lugar eminente um enorme quadro, de larga moldura doirada, representava a descida da Cruz.

Contava-se que pertencera a antepassado, cujo nome se perdera, que fora para a guerra. A demora foi grande e os herdeiros deram-no morto e despejaram a casa.

Uma bela manhã regressou. Encontrou a residência despojada das melhores alfaias e ao observar a gravura, exclamou lacrimejando de júbilo.

- Graças ao Senhor, deixaram o que mais valor tinha para mim!

 Essas casas velhinhas carregadas de História e histórias, que teimam destruir, em lugar de restaurar, encontram-se impregnadas de ancestrais tradições e não são só pertença da família que as habitam, mas à cidade onde se encontram.

 A casa onde nasci já não existe. Após o falecimento de meu pai, o camartelo desventrou-a, derrubou as traves seculares, desfigurou-lhe a fachada, dividiram-na em apartamentos, tudo em nome do progresso; com ela morreu um pouco de mim e todos que nela viveram e morreram.

HUMBERTO PINHO DA SILVA – Porto, Portugal

humbertopinhosilva@sapo.pt

Em: Internacional

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