Para muitas crianças e adolescentes do País, voltar às aulas significa o reencontro com os colegas, cadernos com as folhas ainda brancas e o uniforme engomado. Para os professores, porém, as expectativas são as piores possíveis. Acuados por péssimas condições de trabalho, insegurança, salários achatados e diante da ameaça de agressões e ofensas cada vez mais presentes nas salas de aula, os profissionais das redes públicas contam as horas com medo do que vem pela frente. E são poucos os que enxergam a chegada do início do ano letivo com alegria.
Educadora da rede pública do Estado de São Paulo há 20 anos, Maria Rodrigues, de 51 anos, não esconde o temor que possui desde que foi ameaçada de morte por um adolescente há 1 ano. “Ele nem era meu aluno.
Repreendi o rapaz porque ele estava travando o portão da escola e ele começou a gritar várias vezes: ‘vou te matar’.
Hoje tomo todos os cuidados quando chego ou saio do trabalho”, afirma ela, que, na época, registrou boletim de ocorrência na delegacia mais próxima do colégio, localizado na zona norte de São Paulo. Maria conta que não são raros os casos de professores afastados sem condição psicológica de dar aula, depois de passarem por situações traumáticas.
“Há muita agressão física e verbal nas escolas, o que abala os professores.”
Ela foi exceção ao registrar a queixa na polícia. A maioria dos agredidos prefere o silêncio.
Paulo Neves, professor e secretário de Comunicação do sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), observa: “Além da pressão hierárquica, eles têm medo de represália da comunidade.
Outro dia, atendi uma professora que apanhou de um aluno em plena sala de aula, mas não quis registrar queixa”, diz.
De acordo com uma pesquisa do sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo, cerca de 88% dos professores afirmaram já ter sido vítimas de desobediências e agressões verbais e 21% das escolas já tiveram funcionários, alunos ou professores ameaçados de morte.
A pesquisa foi realizada em 2007. De lá para cá, a situação só piorou.Em 2008, o caso da professora de português Paula Aparecida Alves, que levou socos e pontapés de um aluno de 14 anos dentro da sala, chocou o País. Ela ainda leciona na mesma escola em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
O aluno iniciou as ofensas quando foi repreendido por atrapalhar as aulas.
Ao ser retirado da sala por uma inspetora, ele bateu e derrubou a professora no chão, continuando com chutes no estômago.
O jovem agressor levou uma suspensão. Paula, na época, disse que pensava até em largar a profissão.
Nem o Ministério da Educação (MEC) tem uma solução para conter a violência, conforme assumiu em e-mail enviado à Folha Universal pela assessoria de comunicação do órgão: “O MEC até o momento não possui programa específico de combate à violência contra professores.
” Os motivos que agravam a falta de respeito são muitos. Para Maria Isabel Azevedo Noronha, presidente da Apeoesp, o fato de não haver mais reprovação (no caso do Estado de São Paulo), a superlotação dentro das escolas e até as famílias, que não educam adequadamente as crianças, agravam o quadro.
“Há classes com 50 alunos, quando o ideal seria metade disso. Por todos esses motivos, o desrespeito com o professor só cresce, inclusive por parte do Estado, que não apoia a categoria com condições nem com salários dignos”, reforça Maria Izabel. Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, o salário é de R$ 437,58 para um professor iniciante que trabalha 40 aulas semanais.
Esse valor, referente ao estado do Ceará, está abaixo do salário mínimo, que é de R$ 510. Já de acordo com a Apeoesp, o salário do professor iniciante no estado de São Paulo, com carga horária de 24 aulas por semana, é de R$ 785 mensais.
“A questão salarial está uma calamidade. Em 4 anos de governo em São Paulo os professores não receberam mais que 7% de reajuste”, protesta Luis Gonzaga de Oliveira Pinto, presidente do sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo.
Cansado de reivindicar por melhores condições, ele reclama ainda da indiferença.
“O Governo nem se dá ao trabalho de nos receber”, afirma.
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