Um conto… / O tempo não espera.

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cantinho_poeticoOs sentimentos ainda estavam olhando a manhã que se despedia quando seu sorriso aqueceu aquele olhar que pedia que o dia fosse esquecido. O tempo esperava lá fora impacientemente aguardando para que as regras fossem seguidas e lá dentro apenas a não preocupação com ele imperava.

O branco se enchia de cores quando Nicole e Cássio olhavam na direção dos dois no ápice de uma paixão desenfreada a que se entregavam sem pressa. O corpo dourado de Cássio seduzia o de Nicole com o seu perfume que ela sentia ao longe. Lábios úmidos e devassos procuravam o encontro da pele na sensação enigmática do prazer em ser som aos ouvidos atentos que captavam o menor ruído provocado pelo mover dos lençóis. Nos seus braços os dela se perdiam mergulhados em seu peito que fazia o coração bater agitado. Uma canção qualquer tocava e musicavam desejos nas frases feitas por algum poeta e adaptadas para o prazer incomensurável de serem poesia na cama, no chão, no espaço de dois em emoção constante. O reflexo no espelho brincava com os toques que decididamente entregavam um ao outro, embebidos de um sentimento perigoso sendo o amor já um forte aliado. Implacáveis, seguiam como deuses, antes que o tempo os fizesse novamente mortais ao descerem do pedestal. Seus vícios eram virtudes que colhiam atentos ao próximo ato, ao próximo movimento cheio de ternura e ferocidade ao qual se atiravam em constante gozo. Nada podia o tempo contra a doação naquele quarto de hotel. E cada vez que lançava seu corpo ao dela, sentia a fúria do mar e o desejo de alcançar novas fronteiras.

Um misto de prazer e domínio era visível em seus olhos simultaneamente doces e confusos ao encenar as obras de Shakespeare no amor proibido que realizava o percorrer da realidade na excitação de corpos intérpretes do borbulhar de champanhe que refrescava loucuras.

Nicole não acreditava em juras de amor e nada mudaria esse seu pensamento. Bastava o que ela vivia no momento e o que viveria em cada encontro. Ele era um homem que sabia o que queria e seus lindos e enormes olhos castanhos tornavam isso absolutamente claro. Tão claro que ás vezes lúcida eles assustavam-na. Havia neles uma determinação que povoavam seus sonhos já que nunca mentia a si. Havia amor, enquanto nos dela existia o mesmo, só que não dito, nem demonstrado.

__ Nicole, por que nunca falamos do que sentimos?

Chovia e a vidraça transparente mostrava apenas a imensidão do céu com nuvens ora claras, ora escuras, em tons misturados aos sentimentos. Como falar deles se o tempo tinha um perfil que mudava de acordo com o sopro do vento? A inconstância dos mesmos era uma anunciação de que Nicole era um dia de sol ou um dia de tempestade, quando marinheiros bêbados diziam:

__ É. Hoje o mar não está para peixe – e erguiam os copos, gargalhando.

Nicole não disse uma só palavra e dirigiu-se ao banheiro enquanto Cássio permanecia preguiçosamente envolvido com os lençóis e os travesseiros que exalavam o perfume de Nicole e o embriagava de desejo. Ele não sabia como amava tanto aquela mulher que era fria quando tocava na palavra amor, mas que amava como nenhuma das mulheres com as quais já havia vivido. Os mais tórridos momentos de sua vida estavam com Nicole. Ela sabia amar, dar prazer.

Enterrada na água morna da banheira, Nicole relaxava e sorria pensando na pergunta de Cássio. Ela poderia dizer o quanto ele representava, para ver a sua reação. Nicole sabia que ele a amava e orgulhava por ter o amor de um homem como Cássio. O que a impedia era o medo de assumir esse amor e vê-lo desgastado com o tempo.

Embaraçada preferiu esquecer e brincar com as bolhas de espuma que tomavam seu corpo. Cássio sorria no portal olhando-a como uma criança indefesa.

__ Por que não vem? Preciso de companhia…

A voz de Nicole tinha algo de sereno e ao mesmo tempo diabólico, com uma sensualidade que implorava e ordenava que Cássio a acompanhasse. Sempre fora assim. O tom rouco da voz era uma das dádivas que acompanhavam Nicole.

Os olhos de Cássio faiscavam como um animal e agiu como tal. Em um impulso estava entregue a Nicole que mordia seu corpo e arrancava gemidos enquanto Cássio a possuía e sentia que nesse momento ele era dono do corpo de Nicole como também de tudo o que ela sentia. Dono da mulher que ele queria, que sabia sua, mas que o intrigava com seu jeito próprio.

__ Diz que me ama Nicole…

Ela sempre silenciava seus pedidos com beijos, o que o deixava intrigado, mas aumentava o desejo.

Ficaram horas na banheira e Cássio a carregou para a cama onde a secou com beijos e exaustos adormeceram.

Acordou quando Nicole já estava praticamente pronta. Eles sairiam para jantar. Completamente tomado por seus pensamentos ele observava a guerra de Nicole com alguns fios de cabelo que não permaneciam como ela queria. Sua silhueta no longo vestido bronze era de despertar a curiosidade de um frei. Aconchegou-se a ela e correu sua mão na fenda, na perna esquerda, tocando sua virilha quando sentiu que Nicole estremecia. O cheiro de seus cabelos já o deixava excitado. Tudo naquela mulher o excitava. O ar que ela inspirava e expirava o fazia desejá-la. Ela segurou sua mão, e doce alcançou seus lábios aos quais sussurrou:

__ Estão nos esperando e você me deixou faminta. Vista-se…

Cássio ainda insistiu, mas como cedia aos caprichos de Nicole obedeceu ao seu pedido. Ele perguntava-se, como aquela mulher exercia total poder sobre ele se algumas vezes o provocava e agia de maneira incongruente e infantil. Tentava em vão encontrar adjetivos que o fizesse desistir daquela mulher, mas eram as provocações, a incongruência e a infantilidade dela que o fazia padecer por seu amor. Era o seu jeito de negar-se a dizer que o amava que o enlouquecia.

No restaurante escolheram aquela mesa em que os amantes se encontram e já de início Nicole teve a sensação de que Cássio queria ocultá-la, não sabendo ela que para Cássio estar ao seu lado representava que ele a tinha enquanto outros a desejavam.

Cristiano, um jovem cineasta, quando viu que eles haviam chegado logo chamou a atenção das pessoas que estavam a esperá-los. Educadamente levantou e foi ao encontro do casal. Não por ser um gentleman, mas por ser um dos admiradores de Nicole e por já ter desfrutado de momentos de prazer em sua cama. Difícil seria dizer com qual deles ela não tivera um caso. As esposas cinicamente sorriam e a tratavam carinhosamente por medo que ela seduzisse seus maridos que já estavam seduzidos. Nicole era o tipo de mulher que tinha apenas um amor, mas que vivia o momento e estava sempre fugindo do mesmo por medo de encará-lo. Sempre achou o amor um sentimento perigoso de ser vivido ao passo que amores eram viáveis.

O clima parecia agradável, mesmo com indiretas de todos para Nicole e seu jeito de viver.

Conversavam – civilizadamente – quando Breno veio compor a mesa.

__ Como sempre bela, Nicole. Apresenta-me seu novo amante? Estou a observá-la faz algumas horas e como não me viu vim cumprimentá-la.

Era possível sentir o hálito de Breno à distância e o desequilíbrio o condenava.

__ Claro Breno, querido. Esse é Cássio. Meu novo cafetão. Agora quando quiser passar um tempo comigo deve tratar com ele, e como estamos entre amigos, talvez eu deva divulgar que quero que ele seja visto como meu empresário; é mais agradável.

__ Não tinha conhecimento que para ir para a cama com uma mulher com a qual já estamos acostumados a dividi-la, seja preciso uma negociação. Diga seu preço e deixemos os que não sabem aproveitar a vida, perdidos na noite.

Cássio segurou Breno pelo colarinho e antes que dissesse algo, Nicole o conduziu para a pista de dança.

__ Como pode deixar que ele fale assim com você? E ainda por cima me chama de cafetão? Não tem o mínimo de respeito pelos sentimentos alheios? Não estou aqui para ser humilhado publicamente.

__ Ele não valeria a humilhação pela qual passaria se o tivesse agredido. É um bêbado. Uma pobre criatura vítima do destino. E eu quero ir embora, estou com dores de cabeça.

Lembro-me que Cássio não foi contra sua vontade. Poderia ter dito não. Ela sairia e sofreria o abandono. Colocaria outro em seu lugar. Mas não. Ele saiu com ela. A noite estava fria e Nicole sentia seus lábios congelarem. O silêncio de Cássio doía.

Quando pararam na porta do hotel. Cássio apenas acenou com o olhar para Nicole. Isso significava que ele queria ficar só. Ela desceu e ele ainda ficou olhando até que ela sumisse para dar a ordem ao motorista para que seguisse. Foi para a casa de veraneio dos pais.

Nicole entregou seu corpo a cama como se nada tivesse acontecido.

Os primeiros raios do sol brincavam na vidraça produzindo infindáveis tons de cores que formavam um arco-íris e dançavam na cortina. Os pássaros já trocavam piados uns com os outros anunciando que mais um dia nascia. Cássio ainda não havia pregado os olhos. A noite solitária fora sua companheira. Pensara em tudo que havia feito para estar com Nicole. Na família que abandonara para viver um grande amor. O único que ele sabia ser verdadeiro. Sabia que viver com Nicole seria andar em uma corda bamba, que o passado não poderia ser apagado. Que ele viveria na incerteza se ela o amava, e mesmo assim arriscava tudo o que tinha, sabendo que a vida é apenas vida se existem momentos felizes. Ele queria esses momentos com ela. Viveria com ela mesmo que a sociedade os rejeitasse. Recordou o dia em que a conheceu. Uma menina quieta, inteligente, que representava com a alma as encenações escolares nas datas especiais. As tranças douradas, soltas no colo indo terminar na cintura que o vestido colorido tão bem delineava. Pernas que pouco eram mostradas pelo comprimento do vestido, mas que eram lindas e que o vento fazia questão de mostrar aos olhares que a cobiçavam, como se dissesse que eles a olhavam, mas era ele quem as tocava. Os lábios vermelhos ensinaram Cássio a gostar das cerejas que sempre encontrava nas tortas que comia aos domingos. Tudo em Nicole era natural e belo. Ele ficaria com ela. Permitiria que a felicidade fizesse parte de sua vida. Era um homem decidido. Pediria Nicole em casamento. Saiu apressado para encontrar a amada.

O telefone tocou insistentemente e ela decidiu atendê-lo.

__ Nicole? O que vai fazer hoje? Poderíamos almoçar juntos?

Ela não sabia o que dizer. Queria que outra pessoa estivesse do outro lado da linha. Sentia falta de Cássio. Não querendo ficar só, aceitou o convite.

__ Vou esperá-lo.

Um caderninho colorido continha as anotações de Nicole. O vento brincava com suas páginas…

Cássio descia do carro com um ramalhete de flores quando viu Nicole entrando em um automóvel. Gritou, mas o vidro fechado impediu que Nicole o escutasse. Entrou no carro com o coração acelerado e seguiu o automóvel.

Em poucos minutos estacionavam em um luxuoso restaurante a beira da praia e Nicole descia com um senhor alto trajando uma bela camisa de linho para fora da calça, o que lhe dava um ar jovial. Ela exibia suas formas em um belo vestido florido, os cabelos soltos, um tamanco transparente realçando seus belos pés, óculos tão escuros que emolduravam seu rosto e a deixava ainda mais radiante. Uma leve maquiagem mostrava toda sua beleza em meio a corpos seminus que passavam na calçada. De braços dados e sorrindo os dois entraram. O sorriso de Nicole era contagioso.

Uma nuvem negra cobriu os pensamentos de Cássio e os mesmos, desordenados, o levaram as lágrimas em um desespero pueril e violento. Quis entrar no restaurante e assassinar os dois. Acabaria com seu sofrimento e não deixaria mais que Nicole zombasse de seu amor. Não tinha forças para cometer tal loucura pois os mesmos pensamentos que o instigavam traziam a lembrança do sorriso de Nicole percorrendo seu coração como água com açúcar. As lembranças estavam misturadas ao momento presente e isso o impedia de realizar qualquer ato. Voltou para a casa de veraneio dos pais e os olhos vazios sonhavam ainda com aquele amor enigmático que busca todo ser humano. Como poderia ficar sem aquela mulher que mantinha viva nele a chama do desejo, do pecado e da pureza? A dor cravada no peito o fazia um pobre romântico sofrendo pelo amor de uma mulher proibida. Proibida? Sim. Nicole não nascera para estar ao lado de um único homem. Era livre demais para que exigissem dela fidelidade. Os fragmentos dos pensamentos de Cássio abriam-se em miríades de possibilidades alertando a consciência de que ele precisava entender o amor. Entender? Como entendê-lo se ele e Nicole se amavam? O que Cássio não compreendia é que o destino inexorável, nos ares gregos, já estava traçado; não poderia fugir.

…É comum a busca que o ser humano faz pelo tão sonhado amor. Em nome dele tudo acontece. Sei não, pode até ser que o amor seja matemático nas estórias e nas grandes histórias. O número de casais que encontram aqueles que amam e são amados é passível de números aonde isso chega a ser um milagre. A cama é ligada ao lado humano e emocional. Casais são apenas um em corpos revolucionários. Pura subjetividade. Buscar no outro pela própria imagem é um sonho coberto de fragilidade que tem a promessa de uma realização. Está provado que a parte humana acredita em milagres. Espero o meu acontecer. Para não assustá-lo vou vivendo tudo o que a vida tem me dado ao lado de Cássio. Não sonho com a promessa de uma vida para sempre juntos. Isso seria a prova de que ainda vivo crendo nos contos de finais felizes. A felicidade acontece quando estamos juntos, só não espero mais do que tenho…

Cássio esperava por Nicole quando ela desceu e despediu do parceiro com um longo beijo na face. O sangue de Cássio fervia.

__ Oi! Senti uma pontinha de saudade. Vamos subir?

Cássio queria dizer muita coisa. Queria brigar, queria tomá-la nos braços, queria confessar seu amor como nunca tinha sido confessado, queria odiá-la; só que a seguiu e olhava o balanço de seu corpo no saguão. Como era linda…

No quarto Nicole tirava o vestido mexendo o corpo e o deixando escorregar. Nua circulava pelo quarto e Cássio seguia todos os seus movimentos. Era a anunciação de que ele não fugiria ao que ela desejasse.

__ Cássio por que me deixou e aparece somente agora? Pensei que essas seriam nossas férias.

__ Não a deixei Nicole. O que mais queria era estar com você.

__ A vida não passa de uma comédia… Como queria estar comigo se me deixa e reaparece como se nada tivesse acontecido? São por essas situações que não levo a sério meus sentimentos; minha vontade de demonstrá-los é incompatível com a realidade. Guardá-los ainda é um meio seguro de manter-me protegida das armadilhas do mesmo.

__ Se soubesse o que sofro por você não diria besteiras. Não consegue entender que eu a amo? Não é difícil Nicole. Basta que você deixe seus sentimentos livres. O medo que sente do que quer viver é o que a proíbe de alcançar seus sonhos. Religiões e filosofias têm conflitos nessa compreensão a que pregam o amor, ensinam o amor e não traduzem o amor. Ele não é um conceito para ser divulgado em artigos, compreendido por mestres, é simples, é para ser vivido. Podemos esvaziar o tempo, mas não conseguimos sufocá-lo. É latente e vivo.

As palavras de Cássio eram como carícias ao corpo de Nicole que desesperadamente sentia a doçura e a verdade das palavras que ele tão bem elaborava. O apetite de seu corpo fazia com que ela estremecesse e as pernas trêmulas podiam ser vistas dentro do olhar faminto de Cássio. Era de sexo o que ela precisava naquele momento. E nesses momentos seus olhos brilhavam confusos e ao mesmo tempo decididos. Bem próxima de Cássio sentia que seu corpo também manifestava uma intensa vontade pelo seu. E aconchegando aos seus braços esqueceu que estavam a buscar o amor – pregado – por uma época. O mais importante era saciar aquela necessidade enorme de possuir e ser possuída. Que pensassem e discutissem o amor depois que o tivessem feito.

Furiosa arrancou a camisa de Cássio beijando seu peito desesperadamente e sentindo que quanto mais o possuía mais tinha a possuir. Cássio passeava as mãos em seus cabelos sentindo como o toque de Nicole o confinava ao prazer imediato. Não queria mais compreender o que a fazia ser como era, nem porque nunca confirmava o que sentia por ele. Estava entregue aquela porfia de beijos que travavam.

__ Eu amo você.

Essa frase tão esperada causou pânico em Cássio. Aquela mulher confidenciava uma verdade ou usava de uma artimanha para enganá-lo? Dúvidas marcavam seu corpo como as unhas de Nicole. Poderia ignorar o que ouviu, mas não conseguiu.

__ Quero me casar com você. Quero viver tudo ao seu lado.

__ É o que quero…

O medo fugia de Nicole.

Entregues a prazeres inimagináveis davam asas ao reparável erro de fugir ao que o corpo e alma precisavam um no outro. Estavam nascendo nas fugas e nos conceitos que tantas vezes o afastaram. Eram novos sendo os mesmos. Superavam suas incertezas no quadro que construíam na pele febril.

Comunicado á poucos amigos a decisão que tomaram, desfrutavam de dias felizes na escolha da casa, no preparativo para o casamento. Nicole não queria uma grande cerimônia, mas não abrira mão de uma confirmação do amor de ambos na capela de sua cidade, em uma montanha onde a liberdade com que a natureza sobressaía era visível como a liberdade para que ela nascera.

Impacientes, não mais que trinta convidados, entre eles Cássio, aguardavam a chegada de Nicole.

Típico de um noivo que se apavora com o atraso da mulher amada, Cássio andava de um lado para o outro apertando o dedo polegar. Ouviam-se cochichos que mais pareciam confissões na pequena capela que chegavam como eco aos ouvidos de Cássio.

__ É claro que ela não mudaria de vida – resmungava uma esposa enciumada com um tom sarcástico e triste, enquanto pensava que casada ela não seria mais um perigo.

__ O que faz um homem confiar em uma mulher como Nicole?

__ Esse tipo de paixão é coisa de romances… Nunca acreditei nesse amor.

Os únicos amigos que Nicole considerava os fiéis estavam ali e eram eles que criticavam-na.

Uma revoada de pássaros entrou na capela e pétalas de rosas vermelhas caiam do teto e perfumavam o ambiente. Os comentários maliciosos foram substituídos por um silêncio total quando Nicole apareceu como uma deusa na porta da capela com um sorriso inebriante no rosto. Seu brilho era natural e leve como as flores que ornamentavam os bancos e o altar. Sua beleza era retomada no vestido carmim que exerceu um verdadeiro magnetismo em todos os presentes. No cabelo louro, pequenas flores como que espalhadas na relva, e nas mãos trazia um solitário lírio. Uma serenata de Schumbert cooperava com a singeleza do momento.

Cristiano murmurou que Cássio era um homem agraciado pelos deuses por conseguir o amor de uma mulher como Nicole, o que foi confirmado pelos olhares de outros.

Juravam amor enquanto estivessem vivos quando foram abordados por tiros. Balas e gritos misturavam ao som do piano que logo calou com o sangue do pianista derramado nas teclas. Convidados corriam e outros caiam mortos. O pavor roubava o encanto do momento. Nicole tombou como uma folha sendo levada pelo vento até alcançar o chão. Cássio cobriu seu corpo protegendo-a.

O tiroteio durou alguns minutos até que a polícia local conseguiu que os perseguidos se rendessem. No meio da confusão Cássio em lágrimas beijava Nicole que apertava as mãos contra o peito sem soltar o lírio. O sangue escorria pelo singelo vestido carmim e confundia-se nas pétalas vermelhas das rosas que foram salpicadas para que Nicole passasse. Sua cor fugia e sua aparência mais se assemelhava a de um anjo; um belo anjo sorridente.

Cássio tomou-a nos braços e em desespero pedia socorro. Colocou seu frágil corpo quase já sem vida no carro e seguia alucinado para um pronto socorro quando Nicole pediu que ele parasse. Indicou para uma pequena maleta. Cássio pegou-a e ao abri-la encontrou apenas um caderno. Nicole murmurava com muito esforço algumas palavras que Cássio não deixava escapar.

__ Sempre o amei… Sempre…

__ Sim Nicole. Fique quieta. Não quero ouvir isso agora. Por favor, fique quieta. Não faça mais esforço. Deixe que eu siga. Tudo vai ficar bem.

Nicole parecia não ouvi-lo. Murmurava seu amor com as forças que ainda possuía.

__ Perdemos o tempo. Matamos o tempo. Perdemos o tempo com coisas sem importância. Sempre acreditei que o tempo estava em minhas mãos…

Cássio não compreendia o que Nicole dizia.

__ Sim Nicole. Sim. Matamos o tempo. Tenho que levá-la para um hospital.

__ Não compreende Cássio? Eu amo você. O amanhã é esse momento que temos hoje. O desconhecido será o ontem senão assumirmos o agora. Eu amo você. Beije-me…

Cássio colocou seus lábios sobre os de Nicole e sentiu o gosto do sangue e da dor pela qual ela passava. Seus lábios quase já não tinham mais movimentos.

__ Amo… Você… Cáss…

Nicole disse suas últimas palavras e seus olhos permaneceram abertos, em paz, como se admirados por uma visão maravilhosa. Mesmo já sem vida estavam fixos nos olhos de Cássio.

Ele seguiu com o corpo de Nicole para o pronto-socorro e gritava por ajuda. Pedia que ressuscitassem-na; que devolvessem-na a vida; que não deixassem-na em sombras.

Os médicos nada podiam fazer a não ser aplicar um calmante em Cássio.

No enterro, Cássio segurava um solitário lírio como Nicole.

Depois da cerimônia fúnebre encerrada, sentou-se debaixo de uma frondosa árvore e começou a folhear o diário de Nicole. Em lágrimas leu a última página.

…Hoje vou casar-me. Estarei mais ligada ao único homem que sempre amei. Chega de fugir. Ele espera-me. Irei ao seu encontro como um pássaro deixa o ninho para descobrir a vida. Hoje renascerei em seus braços e em seus beijos direi do meu amor que sempre existiu. Não posso demorar… Ele espera-me para ouvir que eu o amo…

Cássio voltou ao túmulo beijou e depositou o lírio no cimento frio. Ali caiu de joelhos e prometeu a Nicole lírios todos os anos, até que finalmente viesse a juntar-se a ela.

E assim, foi por trinta e dois anos, até que Cássio Júnior sepultava seu pai ao lado do túmulo de Nicole com… um solitário lírio nas mãos.

Sua fisionomia era a de uma criança saciada, adormecida…

Estava feliz, aonde se encontrasse.

Eliane Alcântara.

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