Varrendo o quintal.

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Dias atrás vi uma gravura que mostrava uma mulher varrendo o quintal com uma grande vassoura de piaçava, e isto me levou ao passado para valer, até porque hoje, se mora em apartamentos, casas com a maioria dos quintais com lajotas e azulejos, que tiram a magia do varrer o quintal. Mas como disse, através daquela gravura, voltei aos meus oito anos ou perto disto, e com a chegada de final de ano, hora de arrumar o quintal para o Natal. Não que não se fizesse isso em outras épocas, mas esta era especial, e para mim passou a ser especial porque naquela aprendi com o velho João, a varrer o quintal. A mania era cortar a grama do jardim, podar as camélias, roseiras, hortênsias, e levar tudo lá para o fundão, onde as sobras eram amontoadas. E aí que entra o tio João. Enquanto eu cortava a grama e aparas do resto com a tesoura, ouvia de vez em quando o barulho de metal sendo afiado no fio de sua enxada que brandia sistemática de vagarosamente nas laterais para depois passar para os fundos da casa. Mas quando me viu passar com o primeiro carrinho de mão coberto de restos do jardim para o fundo do quintal, me atacou no meio do caminho, e mudou o lugar de deixar as sobras. No meio do quintal. Sem entender bem o que desejava o atendi e assim fiz com as demais cargas, enquanto ele por seu lado, também levava suas sobras de faxina para o mesmo monte, e três dias depois, terreno todo carpido e entulhos secos, ele fez uma fogueira de fogo controlado.

Tudo queimado, quintal limpo e sem entulhos lá no fundão, e devo confessar que o limpar o quintal daquele ano me pareceu bem mais completo. Mas não estava não. Desaparecido um dia inteiro, apareceu no final da tarde com os braços cheios de galhos que me explicou ser piaçava e fez uma vassoura que me despertou seis horas da manhã seguinte com seu sistemático esfregar ao redor da casa. Pergunte-lhe da janela o que estava fazendo, e ouvi: “Varrendo o quintal, ora! Agora, nada vai ficar no monte lá do fundão!” E continuou com seu trabalho.

Acho que neste final de ano, também vou varrer o meu quintal. E vou lembrar. Sem entulhos no fundão!

 

Antonio Jorge Rettenmaier,  Escritor, Cronista e Palestrante. E continua à venda nosso CD CARTÃO “Uma pequena história de Natal!” Valor R$15,00 já incluído Correio, com pedido mínimo de três unidades., para [email protected].  Esta coluna está em mais de oitenta jornais no Brasil e Exterior.

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