Tem estrangeiro no choro

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A israelense Salit Lahav diz que se sentiria orgulhosa de ser reconhecida como uma chorona. E tem se esforçado para isso. Embora não haja ainda, em hebraico, um termo adequado para traduzir o título que almeja, ela integra o único conjunto de que se tem notícia a tocar profissionalmente, em Israel, o mais genuíno gênero musical brasileiro, o choro. Ele também organiza encontros musicais semanais para divulgar o choro.

Apontado por especialistas como a primeira manifestação musical popular tipicamente urbana surgida no Brasil (há quem diga o mesmo da modinha e do lundu, mas ambos os estilos chegaram ao país à época da vinda da Corte portuguesa, em 1808, quando já eram praticados na Europa), o chorinho é hoje menos conhecido no exterior que o samba e a bossa nova. Ainda assim, como dizia o compositor Heitor Villa-Lobos, continua sendo considerado por muitos como a exata tradução da “alma musical do povo brasileiro”.

De acordo com os instrumentistas estrangeiros ouvidos pela Agência Brasil, o choro empolga não só o público com sua leveza e riqueza melódica e rítmica, mas também os músicos. Eles não só têm que ter pleno domínio de seus instrumentos para improvisar enquanto acompanham a melodia, como precisam absorver a harmonia e o ritmo característicos da música brasileira.

“Técnicamente, o choro é difícil. Ele tem uma particularidade rítmica que dificulta um pouco para as pessoas de outros países tocar”, diz Salit, que tocava piano e acordeon antes de se dedicar à flauta, instrumento com que começou no jazz antes de chegar à música brasileira e se apaixonar pelo choro. “Mas eu também acho que é um gênero muito próximo da música clássica e que, por isso, para quem estudou música erudita, talvez seja mais fácil tocar choro do que o jazz. E nós, israelenses, também parecemos ter um pouco menos de dificuldade. Talvez porque sejamos muito parecidos com os brasileiros em termos de caráter e de energia”, completa, em português carregado de sotaque.

PAIXÃO – O primeiro contato de Salit com o gênero ocorreu em 1999, durante sua primeira visita ao Brasil. “Eu já gostava muito de música brasileira, mas só fui conhecer melhor o choro em 2006, quando voltei ao país. Aí eu me apaixonei e acabei ficando três meses no Rio de Janeiro só para aprender mais e tocar”, contou a israelense, durante a rápida passagem do grupo por Brasília, onde se apresentou no tradicional Clube do Choro.

De volta ao seu país, Salit recrutou os brasileiros Gabriel Marques e Daniel Ring para formar o conjunto Chorolê (o sufixo lê vem do iídiche e corresponde ao diminutivo português `inho´). Para a percussão, convidaram o também israelense Oded Aloni.

“Eu conhecia pouco de chorinho, mas já vinha aprendendo algo com o pessoal do grupo e ouvia muita música brasileira”, conta Oded. Há cinco anos, ele conheceu o samba e os ritmos nordestinos durante uma viagem ao país. Decidiu, então, trocar o violão pela percussão e carregar o derbake, instrumento percussivo árabe, para as rodas de choro. “Eu demorei para conseguir começar a tocar, mas não considero que o choro seja muito mais difícil para um músico que outros estilos.”

Já para a flautista norte-americana Julie Koidin, com a prática, a técnica pode substituir a falta de “ginga” para o choro, mas o difícil é disfarçar o “sotaque musical” estrangeiro. “Com técnica você pode tocar não só o choro, mas qualquer outra música. A questão é o sotaque musical. Qualquer um que entenda de música sabe que não é um brasileiro quem está tocando. É como a fala. Talvez se passássemos mais tempo no país, tocando todos os dias com músicos brasileiros, conseguíssemos minimizar este sotaque,”

Com formação erudita, Julie também chegou a tocar jazz antes de conhecer o choro, na década de 1990. Seu primeiro contato se deu por meio de partituras que seu então parceiro musical, o violonista Jeff Kust, havia comprado durante uma viagem ao Brasil. “Eu não tinha nenhuma ideia de que aquilo era um gênero tradicional porque as música vinham arranjadas para concertos. Só que sob o título de algumas delas havia a anotação choro e era sempre elas que a plateia mais gostava.”

Julie então decidiu pesquisar mais sobre o assunto. Até descobrir um músico norte-americano que após morar por um tempo no Brasil voltou aos Estados Unidos apaixonado pelo choro e montou, em Boston, um negócio onde vendia discos do gênero.

DISCOS – “Ele disse que eu precisava conhecer o trabalho do Altamiro Carrilho, de quem eu nunca havia ouvido falar. Decidi comprar dois discos que chegaram depois de alguns dias e confesso que quando ouvi o primeiro deles, o Pixinguinha de Novo, minha vida mudou. A performance era incrível. Não parecia com nada que eu já tivesse ouvido em termos de flauta”, relembra Julie, que desde 1997 mantém, em Chicago, o Dois No Choro, no qual toca com o brasileiro Paulinho Garcia (indicado ao prêmio Grammy, em 2009, na categoria Jazz Latino) e com quem já gravou três Cds.

O entusiasmo pelo choro fez com que seu interesse pelo Brasil em geral crescesse. Além de ter pintado a bandeira verde-e-amarela em um muro de sua casa e de já ter pensado em tatuá-la em seu próprio corpo, Julie escreveu o livro Os Sorrisos do Choro – Uma Jornada Musical Através de Caminhos Cruzados, (lançado este mês no Brasil), em que entrevista 52 músicos brasileiros. Artistas do porte de Hermeto Pascoal, Guinga, Sivuca e Altamiro Carrilho, cujo disco mudou a vida da norte-americana.

Já o violinista francês Nicolás Krassic se identificou tanto com a música e com a cultura brasileira que decidiu se fixar no país. Há dez anos radicado no Rio de Janeiro, onde conheceu e tocou com a maioria dos artistas que já admirava quando vivia na Europa, Nicolás considera o choro “uma música de qualidades infinitas”.

“Ele é de uma riqueza harmônica e melódica e tem um ritmo que emocionae anima. E, como o jazz, permite ao músico improvisar. Vejo os gringos que vêm ao Rio de Janeiro e que têm a oportunidade de assistir a um show de choro voltarem apaixonados pelo gênero”, disse Nicolás. “Eu mesmo, quando vim ao Brasil pela primeira vez, em 2001, fiquei surpreso ao conhecer as rodas de choro e ver os músicos tocando com tamanha liberdade. Fiquei apaixonado pelo gênero e voltei à França decidido a viver no Brasil, para onde me mudei cinco meses depois. E não sinto nenhuma saudade.”

 

Agência Brasil

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