Nikão revela: “Minha relação com o álcool aconteceu dos 12 aos 22 anos. Onde tinha bebida, estava”

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Meia atacante do Athletico Paranaense fala sobre a fase em que foi alcoólatra e rodou por muitos clubes antes de se firmar; hoje, ele é o jogador que mais atuou pelo Furacão no elenco atual

Por Rafael Honório e Régis Rösing — Curitiba

Aos 22 anos, Nikão era um andarilho da bola: já tinha passado por 14 clubes em três países diferentes. Foi chamado de Maradona Negro quando atuou pela base do CSKA, da Rússia. A perna esquerda sempre chamou atenção pela habilidade, mas os problemas extra campo eram muitos. Para conseguir lidar com eles, Nikão tinha um “aliado”: o álcool.

– Com oito anos, eu acabei perdendo minha mãe, com câncer. Aos 16, minha avó, que cuidou de mim, também faleceu. Um ano depois, perdi um irmão de 23 anos em um acidente de carro. E não conheci meu pai. Minha relação com o álcool começou aos 12 anos e foi até os 22 anos. Chegou um momento em que eu jogava para sustentar o meu vício da bebida. Onde tinha bebida, eu estava junto. Bebia vodca, uísque, cerveja, vinho, champanhe – lembra.

O menino que chamou a atenção na base do Mirassol, já tinha passado por Atlético-MG, Vitória, Bahia, Ponte Preta, América-MG e Ceará, antes de janeiro de 2015. Foi nessa data que Nikão se apresentou ao Athletico Paranaense, com um visual bem diferente de um jogador de futebol profissional: nove quilos acima do peso.

– Era uma situação até engraçada, porque ele estava com uma camisa apertadinha e a gente brincou que teria que cortar a blusa. O time viajou para uma pré-temporada na Espanha e ele ficou treinando comigo em Curitiba. Reclamou muito, mas entendeu que aquilo era preciso. Ele teve que correr muito, parar com a bebida, largar a noite e cortar outras besteiras. Hoje, ele confirmou que realmente é um atleta diferenciado – comenta Jean Lourenço, preparador físico do Furacão na época.

Hoje, Nikão é o jogador que mais atuou pelo Furacão no elenco atual: são 210 jogos e três títulos conquistados, com a Copa Suruga 2019. O maior dos prêmios é a Copa Sulamericana de 2017, quando o Athletico derrotou o Junior Barranquilla, da Colômbia, na disputa de pênaltis.

– Chegou um momento que eu vi a oportunidade que o Athletico estava me dando, a confiança que o presidente havia depositado em mim. E eu estava jogando tudo aquilo fora. Eu vi que precisava de ajuda, que precisava me firmar em algum lugar. Se eu saísse do Athletico, ninguém mais ia me querer e minha carreira ia ladeira abaixo – pensou.

Para se reerguer na carreira, Nikão se baseou na família: a esposa Izabela foi o principal alicerce para essa reviravolta. Se converteu cristão e abandonou o álcool de uma vez por todas. Dois anos depois da chegada ao Furacão, o atacante foi abençoado com o nascimento do filho Thiago Vinícius.

– Eu tive que perdoar traições, mentiras, mágoas, coisas que ele fez que me machucaram muito. A gente aprende que o perdão faz bem pra gente mesmo e não pro próximo. Porque quando a gente não perdoa, é a gente quem adoece. Realmente, o Nikão nasceu de novo. Só tem um detalhe em que ele não mudou: a bondade dele. Nikão termina treino vem pra casa, não frequenta mais balada, não toma mais bebida alcoólica – comenta a esposa Izabela.

– Quando eu perdi meu irmão, eu falei que quando tivesse um filho, colocaria o nome dele. Eu era muito apegado a ele. Além de irmão, era um amigo, um cara que sempre me apoiou a estar no futebol. Sempre me deu conselhos para eu prosseguir – disse Nikão.

Nikão posa com a esposa Isabela e o filho Thiago Vinicius — Foto: Rafael Honório

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