Uma história bem velhinha

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Por Humberto Pinho da Silva

Têm os clássicos excelentes pensamentos e preciosos conselhos, que o tempo não torna obsoletos, porque a ciência evolui, mas o âmago do Homem mantém-se inalterável.

Padre Manuel Bernardes, que faleceu em 1710, reuniu na “ Nova Floresta” curiosas histórias: umas suas, outras colhidas de livros antigos, que merecem ser lidas e meditadas.

Entre elas destaco a que narrarei por palavras próprias, que mostra que na época, os filhos já eram ingratos, confirmando o versículo bíblico que declara: “ Tal mãe, tal filha”; que o mesmo é dizer: tudo se repete, nada de novo há debaixo do Sol, como assevera o Eclesiástico.

Mas vamos à história:

Uma mulher, por certo viúva, vivia com a filha que era todo o seu enlevo.

Como era idosa e enferma, assentou dar-lhe estado ou seja: repartir os bens, reservando para si pequena parcela da fazenda.

Correram os meses e verificando o erro, que não tinha remédio, ia para o quarto – único refugio que era seu, – e cerrada a porta, palestrava, em lágrimas, a Jesus, sua desdita.

Alumiada, quiçá por Deus, traçou estratagema para resolver o mal.

À noite, fechada a porta, abria a velha e chapeada arca, de sólida fechadura e contava e recontava, não patacos que os não tinha, mas cibinhos de loiça, seixos e pedrinhas a jeito que fosse ouvida no corredor, onde a filha e genro, de orelhas abertas e olhos esbugalhados de espanto, estavam à escuta.

E deste jeito se convenceram que a mulher retinha pequena fortuna, e cuidaram de a tratar com agrado e carinho.

Deslizaram os anos e morreu a mulher. A filha, coadjuvada pelo marido, rapidamente destrancou a arca, e atónita deparou com o seguinte bilhete:

Filhos meus: deixo-vos este conselho, já que dinheiro não tenho: nunca doem em vida para não sofrerem desenganos, arrependimentos e dolorosos desgostos.

E deste modo termina a história, que sendo velhinha é bem actual e digna de reflexão.

http://solpaz.blogs.sapo.pt/

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