Empregado "pé de boi" e patrão "mão de vaca"

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Armando Correa de Siqueira Neto* Especial para o Jornal das Montanhas

Banco de dados do Jornal das Montanhas
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Recentemente publicou-se uma entrevista com o empresário Abílio Diniz, na qual ele confessou ter cometido alguns erros de gestão. Dentre alguns pontos importantes, ele se mostrou arrependido de ter demitido bons colaboradores do quadro organizacional por ajustes considerados necessários. Porém, conforme ponderou: “Seria mais inteligente ter feito o inverso: investido no atendimento, para que os clientes voltassem”. É louvável o reconhecimento dos equívocos de alguém que possui substancial tempo de experiência profissional e sucesso comprovado, permitindo, portanto, que se considere honestamente o passado na próxima vez que se fizer o planejamento que cuidará do futuro. Pode-se errar menos através das informações reais. Todavia não é simples planejar, pois somos presas fáceis do autoengano, que nos leva a crer que estamos certos quando não estamos.

Mas o fato é que o autoengano está presente em outras situações cotidianas, e, em destaque, na relação custo-benefício referente ao salário que se paga ao empregado e à qualidade do serviço por ele prestado. Ainda vivemos o toma lá dá cá com baixo nível de consciência a respeito, haja vista o lucro ser observado de forma isolada, sem qualquer conexão com ações qualitativas cujo efeito é a atração do consumidor e a sua eventual fidelização. É assim que funciona para considerável número de empresários: paga-se apenas a faixa média salarial. Qualquer despesa a mais deve ser cortada, ainda que tal gasto venha a ser recompensado pelos efeitos favoráveis gerados pelo bom nível de capacitação que possui um dado colaborador.

É claro que de anos para cá a fórmula matemática do lucro modificou-se por razões evidentemente competitivas. Porquanto foi preciso encolher a barriga e apertar o cinto para que a sobrevivência financeira permitisse sobrevida e, em alguns casos, evolução. Por tal fato, os salários ficaram entre a cruz e a espada, espremendo por igual os funcionários engajados e os desengajados – há pesquisas recentes que apontam 1/5 de engajamento do total de empregados contra 4/5 que se distribuem, em sua maioria, no desengajamento, e outros poucos na posição “ativamente desengajados”, atrapalhando o cotidiano sobremaneira.

Tal nivelação é injusta e pode se tornar um fator de crescente desmotivação naquele que se percebe capaz e empenhado em prol da organização. A experiência provou fartamente que se perde gente boa por pouco. Não adianta ter o empregado “pé de boi” se o patrão é “mão de vaca”. Será que não vale a pena rever os casos em que a equiparação se sobrepõe ao bom senso? Que tal avaliar os ganhos advindos dos profissionais que fazem a diferença para a clientela cuja satisfação traduz-se em resultados certos? A história já não confirmou incansavelmente que é preciso perder um pouco para ganhar mais? O autoengano não estará na base da compreensão que teima em alegar economia ao máximo sem o mínimo de sensatez ante os fatos? Afinal, quanto vale um bom funcionário?

*Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas, palestrante, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Coautor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006. E-mail: [email protected]

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