Haitianos continuam chegando a São Paulo, diz padre que acolhe imigrantes

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Haitianos continuam chegando a São Paulo

Os haitianos continuam chegando à capital paulista por meios próprios, informou hoje (27) o padre Paolo Parisi, da Paróquia Nossa Senhora da Paz, no Glicério, que abriga imigrantes e refugiados. A suspensão do deslocamento dos estrangeiros do Acre para São Paulo foi anunciada pelo governo federal na semana passada, até que seja estabelecido novo esquema para o transporte de imigrantes. “Mesmo assim, têm chegado entre 10 e 12 haitianos por dia na paróquia”, disse o padre.

“Na sexta-feira (22), chegaram os últimos ônibus fretados do Acre [com 30 haitianos]. A partir daí começou um novo processo. Sábado, domingo, segunda e terça começaram a chegar pessoas pagando a passagem com o próprio dinheiro. Perguntei quanto elas gastaram e elas me responderam que em torno de R$ 350, que é o valor da passagem. E elas me disseram que alguém do Haiti mandou o dinheiro, porque elas não queriam esperar, era urgente encontrar o trabalho”, disse o padre hoje (27), em entrevista à Agência Brasil.

Segundo o padre, a paróquia atualmente abriga 83 haitianos. “Esta foi a primeira noite em que o número de haitianos desceu abaixo dos 100 [pessoas]. Mas, isso, graças também às 46 contratações de ontem [por empresas e também pessoas físicas]. Já na Casa do Migrante, dos 110 imigrantes acolhidos, 40 são haitianos”.

Na semana passada, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, chegou a pedir que a cidade seja avisada com antecedência sobre a chegada de grandes contingentes de imigrantes. De acordo com ele, a capital paulista acolhe bem imigrantes, mas precisa de um aviso prévio para poder se planejar. “São Paulo recebe bem seus imigrantes. A única coisa [que pedimos] é uma pequena antecedência para planejar e para conforto dos próprios imigrantes, para que eles não fiquem desassistidos. Imigrantes fizeram São Paulo. Temos de respeitar essas pessoas, acolhê-las. Mas para fazer isso bem feito, uma pequena antecedência nos ajuda a planejar a ação com mais efetividade”, disse Haddad, no dia 19 de maio.

O padre Paolo Parisi acredita que o desejo de encontrar trabalho rápido faz com que os haitianos não esperem uma decisão do governo federal e comprrem a passagem para a capital paulista por conta própria. “Isso revela uma outra realidade. Não é suficiente pensar em bloquear o fluxo do Acre para São Paulo, porque a imigração continua. Não basta dizer que não se pode ir, porque o ser humano vai, pois é protagonista de sua história. É preciso pensar em como oferecer mecanismos de acolhida melhor”, falou o padre.

Na quinta-feira (21), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou algumas medidas para regularizar a situação dos haitianos no país. Entre elas, o enfrentamento a organizações criminosas dos coiotes que fazem o transporte ilegal de haitianos; a aproximação com os governos da Bolívia, Equador e Peru para articular medidas que evitem as ações dos criminosos; o estímulo das rotas legais com a ajuda do Itamaraty; e ajustes e melhorias nas ações coordenadas entre os governos federal, estaduais e municipais.

O padre disse ainda que este ano as contratações de estrangeiros têm diminuido na capital paulista. “Olhando a média do ano passado, que era sempre acima de 200 [contratações] por mês, começamos o ano ao redor de 120. Ou seja, abaixou muito. Além disso, no mês de abril caíram para 60”, falou.

Desde 2013 no país, o haitiano Bernardo Franck, formado em direito, e que fala português, reclamou que já fez vários cursos no Brasil, mas que não consegue encontrar um trabalho em sua área. “Não estou trabalhando nessa área. O primeiro emprego que arrumei no Brasil foi para trabalhar como auxiliar de mecânico. Depois, como auxiliar de montagem e atendente de supermercado”, disse ele. “E, hoje, no Brasil, está complicado. Todo mundo sabe que está em crise. Não tem trabalho para todo mundo”, acrescentou ele.

Na tarde de hoje (27), a Coordenadoria Regional da Saúde Centro promoveu uma ação na Paróquia Nossa Senhora da Paz para verificar a carteira de vacinação dos rota haitianosestrangeiros, submetê-los a vacinas e exames clínicos, entre eles, o diagnóstico de HIV. A expectativa era atender pelo menos 100 haitianos somente hoje. Um dos que tomou vacina hoje foi Exert Descartes, de 51 anos, que chegou ao país há cerca de uma semana e busca emprego para mandar dinheiro para mãe, esposa e filhos, que permaneceram no Haiti. “Vou trabalhar em qualquer lugar”, disse ele, que trabalhava na área de construção de seu país. Ele contraiu gripe ao chegar em São Paulo.

Villarson Stanley, 24 anos, que também seria vacinado na tarde de hoje, disse que está no Brasil desde o dia 28 de abril. Ele veio a São Paulo em um ônibus fretado do Acre. O haitiano ainda não fala português e concedeu entrevista por meio de uma intérprete. Stanley contou que era garçom e motorista em seu país, e que ainda não está trabalhando no Brasil. Ele busca um emprego para ajudar a família no Haiti.

“A ação de hoje reforça o princípio da universalidade do Sistema Único de Saúde (SUS), ou seja, todos têm direito ao atendimento. E reforça o princípio da equidade, ou seja, populações específicas, com demandas específicas, merecem uma abordagem diferenciada por parte do SUS”, disse o médico Clóvis Silveira Junior e coordenador de saúde da região central de São Paulo. Segundo ele, o que ocorrreu hoje foi uma ação pontual de saúde, mas existe na rede pública um atendimento sistemático dos estrangeiros no país. “Ele [estrangeiro] pode ir na unidade básica ou passar no AMA [Atendimento Médico Ambulatorial), de forma gratuita”, explicou o médico.

“Não temos nenhum dado alarmante. A situação está normal, mas é sempre bom estar prevenidos, checar a saúde e ver as vacinas que estão faltando. Às vezes são fragilidades que a própria viagem cria. Para se ter uma ideia, são de 15 a 20 dias de viagem do Equador até a divisa com o Brasil. São situações às vezes limite, então o corpo físico, o stress psicológico e as defesas da pessoa baixam. Então, esse tipo de ação é muito importante”, acrescentou o padre.

Procurados pela Agência Brasil para comentar a declaração feita pelo padre Parisi, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos disse que não iria se pronunciar. O Ministério da Justiça também não comentou o assunto até este momento.

Agência Brasil

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