O perdão de Arruda

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Advogado Mauro Bomfim
Advogado Mauro Bomfim

Mauro Bomfim

Arruda pediu perdão. Pelos seus pecados. Como na música de Ney Matogrosso, para ele não existe pecado do lado de baixo do Equador e quando é lição de esculacho, “olha aí, sai de baixo, que eu sou professor”. Para Arruda, roubar não é pecado. Dinheiro de propina pública na meia, no bolso do paletó, não é pecado.

Não há pecado quando se justifica que o dinheiro desviado dos cofres públicos era para comprar panetone. Presentear com esse mimo natalino os amigos e eleitores do governador. Ninguém, com a pureza mais angelical, acredita nesse repentino pedido público de perdão

Arruda se derreteu diante das câmeras. Falou em perdoar e em ser perdoado. Mas sua oração franciscana é cínica, hipócrita e descarada. Com a cara mais lambida do ladrão flagrado e que tenta justificar o injustificável, o governador do Distrito Federal se apropria de forma indébita de apenas um dos trechos da Oração de São Francisco de Assis.

Na verdade, o trecho da oração franciscana que mais apetece a Arruda, que lhe abre o sorriso quando vê uma montanha de dinheiro de propina em troca de favores governamentais, é outro trecho. Diferente daquele que fala em perdão. “É dando que se recebe”. Esse é o trecho da cartilha franciscana que Arruda e uma trupe de políticos corruptos deste país mais gosta de praticar. O toma lá dá cá. A facilidade na licitação. O dinheiro em troca. O favor e a propina. É dando que se recebe. Só que nesse caso não é perdoando que se é perdoado.

Arruda terá diante de si a porta dos tribunais. Ali ele pode chorar e pedir perdão. E é nesses momentos que Themis, a Deusa da Justiça precisa ser cega. Cega diante do criminoso que deve ser punido. Mesmo que suplique o perdão.

“A justiça tem numa das mãos a balança em que pesa o direito, e na outra a espada de que se serve para o defender. A espada sem a balança é a força brutal, a balança sem a espada é a impotência do direito”, já dizia Ihering.

A faixa cobrindo os olhos da Justiça significa imparcialidade. Ela não deve estabelecer diferença entre as partes em litígio, sejam ricos ou pobres, poderosos ou humildes, grandes ou pequenos. Suas decisões, justas e prudentes, não podem ser fundamentadas na personalidade, nas qualidades ou no poder das pessoas, mas na sabedoria e na dureza das leis.

O que se espera no caso de Arruda é a força brutal da espada para a defesa do direito do cidadão brasileiro cada vez mais espoliado. O cidadão que paga seus tributos e o produto dessa arrecadação é devorado pelas ratazanas de Brasília.

Que o movimento “fora Arruda” se multiplique. Que a OAB, a imprensa e entidades que defendem a ética na política não se descuidem da vigilância cívica permanente. E que a Justiça não permita que mais uma pizza seja assada no forno da imoralidade. Que não seja assado nenhum panetone salpicado de trufas de impunidade.

MAURO BOMFIM é advogado, jornalista e suplente de deputado federal pelo PPS

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