Manhuaçu: a última fronteira leste dos bandeirantes

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Quando os portugueses começaram a chegar ao Brasil, após 1500, viram que o país tinha dimensões continentais e se estabeleceram na Costa Brasileira ou bem próximo desta. Portugal pouco investiu para colonizar o Brasil, preferindo o sistema de capitanias hereditárias.

Na época das capitanias, houve expedição para reconhecimento do Rio Manhuaçu tanto de Sebastião Fernandes Tourinho (da capitania de Porto Seguro) quanto de Vasco Fernandes Coutinho Filho (da capitania do Espírito Santo). Estas explorações eram financiadas pelos donatários das capitanias ou particulares.

A expedição de Marcos Azeredo Coutinho saiu de Vitória e explorou o Vale do Rio Doce, no século XVII. Foram atacados pelos índios. Alguns sobreviventes retornaram a Vitória relatando que encontraram muito ouro e pedras preciosas numa região que virou lenda como a “Montanha das Esmeraldas”. Outras expedições financiadas até pelos jesuítas tentaram encontrar esta montanha, mas tudo em vão.

A partir de 1650, pessoas de origem paulista, que ficaram conhecidas como Bandeirantes, partiram de São Paulo, Taubaté e outras cidades, entrando pelos sertões de matas e habitados pelos indígenas. Eles acompanhavam o curso dos rios. Na época, um dos primeiros a penetrar nestes sertões – depois denominados como Minas Gerais – foi Fernão Dias Paes Leme, fundador do primeiro arraial mineiro: Ibiturunas no alto curso do Rio Grande.

Pedro Bueno Cacunda

Motivados por isto novas levas de paulistas chegaram ao nosso futuro estado, exploravam os rios das Mortes (São João Del Rey), Itatiaia e a região do Serro Frio, entre outros.

Alguns como Antonio Rodrigues Arzão e Bartolomeu Bueno, descobriram muito ouro num afluente do Rio Casca (Casa da Casca). Havia noticias de outras regiões ricas em metais preciosos, onde habitavam duas nações gentias (indígenas) a dos Coroados no Rio Pomba e a dos Purys no Rio de Mayguaçu (Manhuaçu). O bandeirante Pedro Bueno Cacunda partiu de Taubaté (SP) e empreendeu uma exploração no Vale do Rio Manhuaçu, onde chegou em 1703.

Homem dotado de conhecimentos geográficos, em uma das suas cartas ao Rei de Portugal, relatou que o Rio Manhuaçu corria de Sul à Norte e a região seria atingida mais rapidamente se viessem pelo litoral do Espírito Santo.

Ele montou uma fazenda de apoio as explorações próximo a Alegre (arraial de Santana) de onde partia com seus homens a explorar o Rio Manhuaçu e as Minas do Castelo (Castelo-ES).

Na última das suas cartas, ao Rei de Portugal, relata todas as experiências e dificuldades. Uma das principais informações é a fundação de um arraial no alto curso do Rio Manhuaçu (que deve ser considerada como o embrião da nossa cidade). Ele também contou as dificuldades em lidar com o elemento indígena não civilizado e a cobiça até do Governo da Capitania da Bahia. No final, ele pede ajuda ao Rei, material e financeira, que não foi atendida, pois a época foi paralela ao descobrimento de ouro e pedras preciosas na região central de Minas.

Em 16 de julho de 1696, as bandeiras de Miguel Garcia e Salvador Fernandes Furtado descobriram um ribeirão riquíssimo em ouro que denominaram “Nossa Senhora do Carmo”, atual Mariana. Com várias descobertas idênticas, Portugal não tinha como coordenar duas explorações. Esse foi o motivo da região de Manhuaçu e o resto do Vale do Rio Doce ficarem esquecidas até a chegada da família real ao Brasil quando Dom João VI autorizou  a  escravização dos indígenas que  habitavam a séculos as matas do Rio Doce e afluentes sem serem molestados.

Depois de anos, com o tratado de 1800 das Capitanias Mineira e Capixaba, a nossa região passou a fazer parte de Minas Gerais e foram concedidas sesmarias como a de Diogo de Albuquerque em 1826, na margem direita do Rio Manhuaçu. Foi assim que outros vieram, como Domingos Fernandes de Lana que chegou no final da segunda década século XIX, segundo o livro “História de Manhumirim -Município e Paróquia”, de autoria do Padre Demerval Alves Botelho

Lana era sertanista, filho de um dos construtores da Estrada Real (Rota Imperial – ligando as vilas de Vitória a Vila Rica (Ouro Preto) – que passou em nossa região em 1817 e criou um comércio de Ipecacuanha (Poaia) com os indígenas, fundando também. Isto foi a reconstrução do antigo arraial fundado pelo bandeirante Pedro Bueno Cacunda, no início de 1700.

Manhuaçu teve dois períodos históricos: o primeiro iniciado com o bandeirante Pedro Bueno Cacunda, pertencendo a Capitania do Espírito Santo, onde fez parte do período do “Ciclo do Ouro e Pedras Preciosas” e o segundo  já na capitania e província de Minas Gerais. Foi a última fronteira dos bandeirantes paulistas para o leste mineiro.

As explorações de Fernandes Tourinho e Vasco Fernandes Coutinho foram apenas de reconhecimento, não relatando qual parte do Rio Manhuaçu, acredito ser no baixo curso. As cartas de Pedro Bueno Cacunda são os primeiros documentos históricos sobre a região de Manhuaçu, arraial destruído pelos índios em 1734 e reconstruído no século XIX por Domingos Fernandes de Lana.

Isso tudo, muda um pouco da história municipal, pois temos conhecimento agora do fundador Pedro Bueno Cacunda e do reconstrutor, Domingos Fernandes de Lana. Este último, quando aqui chegou, já encontrou famílias assentadas, restos da povoação anterior e índios aldeados. Ele veio como pacificador (sertanista).

Acho que o bandeirante da praça merecia uma placa “Pedro Bueno Cacunda” – vindo de Taubaté (SP) chegou à região de Manhuaçu em 1703.

José Olinto Xavier da Gama Autor Livro “Manhuaçu Rio e Município”

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