A história do coronel que proclamou a República Manhuassu

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entrevistadoprofessor“A partir de agora os dias estão contados para que todo país tenha conhecimento da lendária história e da passagem do coronel Serafim Tibúrcio. Não quero transformá-lo em um herói, também não vim dizer que ele foi um bandido, se ele cometeu seus pecados para lá o problema é dele, eu sou historiador, tenho que mostrar o que é a história, o que aconteceu de fato”, salientou o professor em seu discurso.

A República do Silêncio” investiga um dos mais singulares episódios da História do Brasil, não incluso nos livros didáticos e pouco conhecido e estudado na literatura historiográfica, a breve República de Manhuaçu. “A República do Silêncio” é a narrativa da experiência política que ficou conhecida pela historiografia que estuda na região leste da Zona da Mata mineira como: “República Manhuaçu”, proclamada pelo Coronel Serafim Tibúrcio da Costa no dia 10 de maio de 1896 e esmagada pelas tropas federais 22 dias depois no dia 2 de junho. O episódio foi efêmero, porém o significado extrapolou as fronteiras do município de Manhuaçu para lançar luz sobre a história do Leste Mineiro com seu passado de desmatamento em prol do café e surgimento de coronéis, na trilha do mandonismo e do clientelismo desenfreados e violentos. A narrativa traz informações úteis para o esclarecimento da história política do leste mineiro e principalmente para mostrar que o interior do Brasil tem muita história para ser resgatada e contada.

Em entrevista coletiva o professor Flávio Mateus dos Santos fala de sua obra e de sua alegria por ter concluído este trabalho que durou 12 anos de muitas idas e vindas e muitas pesquisas. “Temos que manter a originalidade e até a credibilidade das fontes que circundam esses assuntos, então é um grande desafio para um historiador reconstruir o passado, uma vez que envolve depoimentos, pessoas que falam coisas sobre o passado e muitas das vezes não é possível provar essas afirmações, temos que nos submeter a tudo aquilo que foi dito pelas pessoas à crítica histórica e à crítica científica. Minhas principais fontes foram jornais da época, processos criminais instaurados no período contra os coronéis e além de depoimentos de pessoas que tiveram parentes envolvidos na trama, além de trabalho de pesquisadores regionais que estudaram sobre esse assunto. Além dessa gama de materiais, também utilizei a literatura acadêmica para poder comparar e entender como foi escrita a história de Manhuaçu” disse o professor Flávio. A história da República de Manhuaçu confunde-se com a história de um homem simples, que aos poucos foi agregando valores e riquezas, até possuir o título de Coronel e ser respeitado, por sua tirania, e amado por toda a região dependente de Manhuaçu.

“O Coronel Serafim Tibúrcio é uma incógnita para muitos historiadores, primeiro porque ele chega à nossa região simples, tropeiro, puxador de carroça, mas logo após ele consegue se estabelecer na carreira de coletor de impostos, é um homem que começa a vida de pequenininho mesmo, ele começa como um tropeiro e vais crescendo, vai subindo passo a passo, foi isso que deu força para que não se retirasse do poder público em Minas Gerais, um dos motivos para a tomada do poder foram as perseguições políticas que o coronel sofreu, o Coronel Serafim Tibúrcio não era nenhum santo, eu coloco isso claramente no livro, mas a disputa de poder no estado mineiro era muito grande, temos aqui um mapa no livro onde percebemos cerca de 51 municípios dependentes de Manhuaçu, e depois da emancipação foram muitos outro que passaram a depender de Manhuaçu, a briga e a disputa eram muito grandes, e necessitava-se de um chefe político de muito impacto nessa região para fazer com que tudo isso se desenvolvesse e criava-se assim a República Manhuaçu, foi na verdade uma disputa de poder, foi a forma de dar o troco ao Estado que não fazia com que o poder do estado chegasse ao município”, comentou o professor. Após a proclamação da república em Manhuaçu o exército brasileiro ameaçou invadir o município entre outras circunstâncias que eram apontadas na época. Tínhamos então a fragilidade da própria república de Serafim Tibúrcio, foram apenas 22 dias, mas foram 22 dias de separação territorial, o coronel não conseguiu dar cabo à essa experiência política, e de repente se vê cercado, e percebe que não vai mais poder contar com o apoio da população, retira suas tropas da região e vai para o Espírito Santo, nisso daria uma prova contundente de que o estado de Minas Gerais, em especial o governador Crispim Jaques não tinha condições nenhuma de administrar Minas Gerais de Ouro Preto, o que futuramente fez com que a capital do estado se transferisse para Belo Horizonte. “Existem diferentes visões da história, algumas delas poderiam dizer que Manhuaçu não foi república, outras interpretações poderiam dizer em outro sentido. Na história existem diferentes linhas de pesquisa, é isso que trabalho no primeiro capítulo do livro, onde procuro utilizar uma literatura científica onde possa analisar se foi ou não uma república em Manhuaçu, para essa resposta existe uma resposta muito sutil, para o povo de Manhuaçu foi uma república, para o Brasil não, pois no período necessitava-se de diferentes situações como reconhecimento de estado entre outras questões políticas para se considerar uma república, mas o povo legitimou o poder de seu governante, logo, em um determinado ponto de vista Manhuaçu foi uma república, já em outro não. Trabalho o silêncio em minha análise, olha que fato interessante, por que vamos estudar o silêncio, é porque através do estudo do silêncio é que vamos saber como esse discurso foi construído, existe o discurso e existe o silêncio, o discurso é aquilo que fica efetivado, que fica documentado, é aquilo que aquele cara que teve dinheiro, que não passou pelo que passei, teve condições para produzir e escrever, silêncio é o derrotado, é o pobre que não teve condições de escrever, então são os dois lados da moeda, a história do dominador e do dominado, quando deslumbro para história a república do silêncio dou voz aos vencidos também, não transformo a ditadura dos vencidos, mas faço com que os vencidos também tenham o direito de falar” concluiu o Professor Flávio Mateus dos Santos, manhuaçuense, sobre seus doze anos de pesquisa.

2 COMENTÁRIOS

    • Caro amigo,

      O editor desse livro mora em Governador Valadares, aqui em Manhuaçu em uma livraria do centro você encontra. Na contra capa do livro há instruções para adquirir o livro, com endereço e telefone.
      Da redação.

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