A obra artística não tem preço

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Por Humberto Pinho da Silva

Conta-se que certo inglês, bastante rico, possuidor de belo cavalo de corrida, certa vez resolveu pedir a Vernet – Conhecido pintor francês, – que retratasse o animal.

Vernet realizou a obra-prima apenas em dez sessões!

No acto da entrega o pintor fez o preço, que estava desde o inicio apalavrado:

– São cinquenta mil francos! – pediu Vernet.

– Tanto!; por trabalho de dez sessões?! – Admirou-se o inglês.

– Não é muito! – replicou o pintor. – Sabe que há mais de quarenta anos que pinto o seu cavalo!

Foi o esforço, trabalho de anos e anos de estudo e dedicação que permitiu, em dez sessões, retratar magistralmente o célebre cavalo de corrida.

Dizia Edison – e Cruz Malpique repetia sem cessar, – que “ O génio é um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração.”

Para que Vernet pudesse retratar em poucas horas, passou décadas a desenhar e a pintar, apartando-se do convívio de familiares e amigos, privando-se de horas de recreio e repouso.

Ninguém consegue ser escritor de mérito, músico ou actor famoso se não dedicar horas afio à vocação. O mesmo acontece ao desportista.

Dizem os pintores que, por doença ou férias prolongadas, pousam os pincéis, que ficam com a mão levantada, querem dizer: o traço e a pincelada perdem firmeza.

O mesmo acontece ao jornalista. O escritor Costa Barreto afirmava que excelentes colaboradores do seu matutino, após interrupção de vários anos, jamais obtinham a leveza nem a graça das crónicas antigas.

Silva Gouveia, o célebre autor da estatueta de Eça, após interregno, por doença, nunca mais conseguiu atingir o nível das suas obras-primas, o que levou o famoso crítico, Braz Burity, em artigo publicado em “ O Primeiro de Janeiro” de 04/03/34, asseverar que Gouveia “ fora um grande Artista, mas que ninguém se lembra disso, porque deixou, os tasselos e as matrizes de fundição do seu prodigioso Eça, do seu formidável Ramalho e do seu velho Marco Guedes, simplesmente esplêndido “.

Francisco da Silva Gouveia, após grave doença, nunca atingiu, em escultura e desenho, o nível artístico que mantinha no inicio do século XX, quando foi premiado na Grande Exposição Mundial de Paris, de 1900.

É o trabalho persistente e diário que faz o artista e permite, como Vernet, retratar ou escrever crónica em escassos minutos.

http://solpaz.blogs.sapo.pt/

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