Museu da República festeja 95 anos do sarau com Nair de Tefé e Chiquinha Gonzaga

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636636O Palácio do Catete, antiga sede do governo federal e residência oficial da Presidência da República até a inauguração de Brasília, abre suas portas em caráter excepcional hoje (26), às 18 horas, para lembrar os 95 anos de um sarau realizado em 26 de outubro de 1914 que causou furor e indignação na República.

A festa dos 95 anos incluirá o maxixe Corta-jaca, de Chiquinha Gonzaga, em solo de violão de Márcia Taborda, Atraente, Guaianases e Lua Branca, também da maestrina, com a banda da Polícia Militar, além de Chant du gondolier, de Mendelssohn, novamente com a violonista, encerrando a programação.

Diretora do Museu da República, instalado no Palácio do Catete desde 1960, a museóloga Magaly Cabral explica a ideia de lembrar os 95 anos do sarau.

“A gente tem a obrigação de rememorar fatos acontecidos no Palácio do Catete, e rememorar Chiquinha Gonzaga e Nair de Tefé, duas personalidades importantes da época e da nossa história”

A festa de 1914 no Catete foi um escândalo na jovem República, tendo merecido discurso veemente do senador Ruy Barbosa, derrotado nas urnas por Hermes, em 1910. Em um dos trechos do discurso, o senador critica a execução do maxixe durante o sarau.

“Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das boas maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social”.

A ira do senador apenas ecoou a revolta da nata da sociedade, que não via com bons olhos o relacionamento do presidente da República, viúvo, com Nair, uma pensadora libertária que ainda por cima era amiga da maestrina Chiquinha Gonzaga, outra revolucionária dos costumes, compositora de músicas populares e avessa à hipocrisia dos salões.

Nair de Tefé foi a segunda mulher de Hermes da Fonseca, contrariando tudo o que se pensava do marechal que havia reprimido a Revolta da Chibata e o levante dos fuzileiros, na Marinha, em que morreram centenas de marinheiros.

No sarau de 26 de outubro de 1914, a segunda mulher do presidente tocou ao violão o controvertido Corta-jaca, de Chiquinha Gonzaga, às vezes classificado de tango brasileiro, mas na realidade um maxixe autêntico, que arrepiava a sensibilidade e a moral da sociedade de então, assim como o samba, o jongo, os ritmos de origem africana em geral e até o próprio violão, instrumento considerado de boêmios e malandros, impróprio para os salões.

“Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de Wagner, e não se quer que a consciência desse país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”, afirmava Ruy Barbosa em seu artigo de jornal.

A lembrança dos 95 anos do sarau histórico que abalou os alicerces republicanos reverencia a memória de duas mulheres de reconhecido valor na cultura e na política e revela às novas gerações uma faceta do caráter do marechal Hermes da Fonseca, o primeiro dos dois militares eleitos presidentes pelo voto popular. O outro, mais de 40 anos depois, foi o general Eurico Gaspar Dutra.

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