Quem salva a Casa da Joaninha?

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Por Humberto Pinho da Silva

Entre os numerosos países que desprezam o património, Portugal deve estar nos primeiros lugares. Não somos tão ricos – nisso estou de acordo, – em monumentos, como a maioria das nações europeias, mas ainda conservamos importante património que é dever, diria melhor, obrigação, perseverar.

Justiça seja feita que nas últimas décadas, quiçá acicatados pela indignação de intelectuais ou interesse turístico – entenda-se comercial, – tem-se restaurado algumas igrejas, palácios e castelos; mas ainda muitas belas obras arquitectónicas encontram-se ao abandono, para não falar de moradias que se tornaram notáveis por nelas haverem vivido destacadas figuras da nossa vida artística e literária.

Várias vezes, e ao longo de anos, venho deplorando o abandono a que foi votada a casa de Soares dos Reis, na rua de Camões, em Gaia. Uma vergonha para os gaienses e em particular para os santamarinhenses.

Igualmente, em Gaia, encontra-se delapidada ou encontrava-se – receio que já não exista, – a casa onde viveu a infeliz Fanny Owen (1) , a menina de Vilar do Paraíso e que ganhou celebridade graças a Camilo Castelo Branco, ao narrar no “ Bom Jesus do Monte” a sua tragédia e morte prematura.

Também no Porto, a casa onde nasceu Garrett foi restaurada, e julgo – pelo menos a última vez que por lá passei já lá não estava, – que foi retirada a placa comemorativa.

Já que falo de Garrett é oportuno referir-me à casa da Joaninha, a menina dos rouxinóis, que conhecemos das “ Viagens da Minha Terra” e lemos, pelo menos, quando frequentávamos os bancos liceais.

Pois essa casa – que pertencera ao escritor Luís Augusto Rebello da Silva, sita na Quinta do Desembargador ou dos Rebelos, acolheu Garrett em 1843, quando viajou do Terreiro do Paço a Santarém, a convite de Passos Manuel, – era a residência da Joaninha e encontra-se em ruínas, – ou estava no ano transacto, – aguardando que o camartelo a derrube para dar lugar a moderna urbanização, e parece que não há quem a salve de morte certa, nem Câmara nem Junta de Freguesia de Vale de Santarém. (2)

Coberta de mato e silvas, assim permanece a casa que tanto impressionou Garrett e que o inspirou a escrever uma das mais belas páginas da literatura portuguesa.

Se houvesse interesse pelo património, por certo que a célebre casa do Vale de Santarém seria restaurada e transformada em museu garrettiano; mas não há.

E deste modo assistimos, placidamente, à delapidação do pouco que nos lembra as nossas raízes e o orgulho de sermos portugueses. Se ainda há orgulho.

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1 – “ Notícias de Gaia” de 24/10- 7/11 e 21/11 de 2002
2 – “ Correio do Ribatejo” de 20/02/2009

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