Saga do Homo sapiens

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Armando Correa de Siqueira Neto*

O que ainda nos falta para compreender o quanto se perde ao evitar a autoavaliação e, ao encararmo-nos no espelho da verdade, assumirmos uma nova e promissora postura de autossuperação? Por que é tão difícil convencer a si mesmo de que se é tão atrasado em relação ao desenvolvimento humano, mantendo-se preso ao autoengano que alimenta o jogo ditado pela exorbitante vaidade e a danosa acomodação? Quem, em sã consciência, deixaria de dar os passos rumo ao autodomínio, alcançando mais visão, autonomia e liberdade, se soubesse que é fruto de um passado que pouco difere do presente – somos presas do inconsciente e da exagerada bestialidade biológica que há tempos serve para a própria sobrevivência -, o qual pode, se não houver a devida intervenção, repetir-se no futuro, como tem ocorrido incessantemente, com exceção dos avanços tecnológicos, que, se refletido adequada e seriamente, compreender-se-á que têm servido, grosso modo, para gerar conforto e infantil disputa por hora? Uma fuga diante de outra luta ainda mais difícil?

Para tanto, se é importante analisar com profundidade a questão, devemos recuar no tempo e caminharmos até o ponto em que nos encontramos, para então reavaliarmos o que se pode fazer em favor de um porvir bem mais interessante. Você sabia que já se obteve compreensões acerca de quem foram os nossos ancestrais e como eles provavelmente viveram? Resumidamente, somos herdeiros do homem de Cro-magnon, de acordo com parte das ossadas e objetos datados em 35.000 anos atrás por meio do teste denominado Carbono-14, e, cuja comparação conosco, deu-se através dos exames de DNA. Tais antepassados, além da sobrevivência, ocuparam-se com a produção de esculturas (algumas guardadas na Universidade de Tübingen, na Alemanha, a exemplo do mamute, do corpo de mulher, da ave voadora e do leão sentado), de instrumentos musicais (flautas) e do planejamento de caça com o uso de artigo relacionado (calendário lunar).

Assim, comprovou-se que havia inteligência e habilidades variadas, além da sensibilidade, nos ditos “selvagens” pré-históricos. Vale a pena perguntar: então, essencialmente, tanto na longínqua época dos comprovados ancestrais quanto na atualidade, o homem possui características fundamentais semelhantes? É claro que houve avanços, mas também ocorreu muita brutalidade na era da civilização, exemplificada no escravismo histórico e nas barbáries ainda presentes. Será que evoluímos tanto quanto se acredita? Ou assim o cremos para dar alívio à dor que certamente se instalará assim que tomarmos a legítima consciência acerca do assunto? Mas não é justamente por causa do abençoado mal-estar que se pode gerar movimento e sair da acomodação que só emperra o desenvolvimento? Por que permanecemos encolhidos no cantinho das situações cômodas se é através do incômodo que se sai do lugar e alcança-se nova posição evolutiva?

Tal apreciação da trajetória humana pode nos posicionar frente ao autoengano de negar o grau de atraso ao qual ainda nos encontramos reféns. Porquanto, a cegueira de não perceber-se devidamente, a autoilusão que minimiza o sofrimento causado pelos fatos, a tentadora acomodação e os perigosos reforços sociais ecoados com estrondo, tais como: “É assim mesmo…” e “Não tem jeito…”, levam o Homo sapiens a reduzir (e muito!) a sua marcha evolutiva, perdendo valiosas oportunidades que lhe escapa inocente e inconsequentemente. Que tal pensar de forma profunda e frequente a respeito, para se experimentar um novo e mais estimulante mundo à disposição? Mas, destaque-se, a decisão é íntima. Ninguém pode tomá-la por outrem. Eis a questão: Ser ou não ser mais do que se ousou imaginar-se um dia?

 *Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), palestrante, professor e mestre em Liderança. Coautor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006. E-mail: selfcursos@uol.com.br

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