Atos de agressão sempre fizeram parte do futebol, diz sociólogo

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Brasília - O ministro do Esporte, Orlando Silva, fala sobre a aprovação do Projeto de Lei 4869/09, que prevê a criminalização de atos de violência nos estádios de futebol Foto: Marcello Casal JR/ABr
Brasília - O ministro do Esporte, Orlando Silva, fala sobre a aprovação do Projeto de Lei 4869/09, que prevê a criminalização de atos de violência nos estádios de futebol Foto: Marcello Casal JR/ABr

São Paulo – A violência no futebol não é uma característica nova. No Brasil, por exemplo, ela já estava presente desde quando o futebol se popularizou, por volta da década de 1910. Há relatos de que, nessa época, os melhores jogadores dos clubes adversários eram sequestrados por torcedores para que fossem impedidos de comparecer às partidas de futebol a que estavam escalados.
“Atos de agressão sempre estiveram presentes no futebol. O que acontece hoje é que, com a chamada torcida organizada, a violência ganhou outras dimensões”, afirmou o sociólgo Carlos Alberto Pimenta, professor da Universidade Federal de Utajubá e autor de vários livros sobre as torcidas organizadas.
Segundo ele, a violência não é uma característica das torcidas organizadas. “Elas não são só isso, mas a violência é constitutiva. Essa química é que permite a aglutinação em torno do jogo e que os torcedores se sintam fortes, socialmente aceitos e impondo respeito sobre o outro.”

As torcidas organizadas ganharam força a partir dos anos 1970, quando começaram a se desvincular dos clubes. Se antes elas serviam apenas para estimular o clube, surgem a partir desse momento os grupos contestadores, que passam a criticar a administração do clube. Uma das primeiras a adquirir esse caráter, segundo o professor, foi a Gaviões da Fiel, a maior torcida do Corinthians.

Antes disso, as torcidas podiam ser encaixadas em três fases. A inicial vai até os anos 1920 e que marca o torcedor, geralmente de elite, que frequentava o clube e adquiria produtos que identificavam o seu time de coração. A segunda etapa, por volta dos anos 1940, é a do torcedor que acompanha o clube nos lugares onde ele está e o futebol começa a se popularizar. A terceira marca o agrupamento dos torcedores nas chamadas uniformizadas, tais como as charangas, no Rio de Janeiro.

“Hoje, como cresceu e se profissionalizou muito, vendemos materiais para fazer bandeiras e temos matrículas e mensalidades para sustentar uma estrutura com salas, sedes e funcionários. Mudou um pouco daquela coisa muito amadora e romântica”, diz José Maria de Sá Freire, presidente do Conselho da Torcida Jovem do Flamengo, uma das organizadas que surgiram como dissidência da famosa uniformizada Charanga Rubro-Negra.

Segundo o psicanalista e professor da Universidade Nove de Julho (Uninove), Alexandre Nicolau Luccas, as torcidas permitem que uma pessoa seja reconhecida como parte de um grupo, além de proporcionar inserção social, algo que o governo, em sua opinião, não consegue fazer. “Os jovens não tem mais espaço para jogar, para brincar, se distrair e para consumir cultura. Então as torcidas oferecem isso vinculando com o clube.”

Segundo Pimenta, a violência chega ao ambiente das torcidas no momento em que a própria sociedade assume novos contornos, dimensões da violência, em torno de uma sociedade que não reconhece e não dá visibilidade às pessoas, e aparece nesses grupos que se traduzem em movimento de fortalecimento do papel da pessoa dentro do contexto social”, explicou Pimenta.
Os torcedores violentos, seriam, segundo o sociológo Maurício Murad, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universo, de setores minoritários dentro das organizadas.

“Alguns fanáticos, movidos pela rivalidade, acabam por cometer atos violentos, mas a grande maioria está interessada em preservar as torcidas, visto que a violência só traz malefícios para a mesma”, afirmaram representantes do Portal Torcidas Organizadas, que não quiseram se identificar, mas que confirmam fazer parte de torcidas organizadas de times brasileiros.

O tenente-coronel Almir Ribeiro, comandante do 2º Batalhão da Polícia de Choque de São Paulo, diz que os grupos violentos “são pessoas que saem do controle da própria organização das torcidas. A diretoria de cada torcida não consegue ser responsável por todas as atuações de seus agremiados. Sempre são infiltrados ali malfeitores que escapam do controle”.

Como essa violência seria específica de alguns membros das torcidas, vários setores da sociedade acreditam que a melhor maneira de combatê-los seria aumentando a responsabilidade das organizadas, principalmente quanto ao cadastramento de seus sócios e integrantes.

“Sou contra o fechamento da torcida organizada porque é uma pessoa jurídica e existe de fato e de direito. Seria uma ilusão achar que, ao extingui-la, o problema seria resolvido. Os torcedores vão continuar existindo e com um agravante: sem o controle do Estado”, afirma o promotor de São Paulo Paulo Castilho.

Para ele, as torcidasorganizadas devem ser cadastradas e monitoradas por um serviço de inteligência. Num segundo passo, acrescenta Castilho, é necessário promover um serviço de inclusão social junto a essas torcidas.
A punição aos maus torcedores está prevista no novo Estatuto do Torcedor, que deverá virar lei ainda este ano. “Sem punição nenhuma, como é hoje, onde o sujeito vai para a delegacia, assina um termo e volta para casa é complicadíssimo e a violência continua se perpetuando”, esclareceu o secretário de assuntos legislativos do Ministério da Justiça, Pedro Abramovay. “O que propomos é uma pena alternativa. O sujeito tem que prestar serviço à comunidade na hora do jogo do time dele. Ele pode ficar até três anos prestando serviço comunitário na hora do jogo.”.

Apesar de algumas ideias, esse problema não deverá ser solucionado tão facilmente. “A violência nos estádios só vai ser superada quando estiver superada também na sociedade. As torcidas são reflexo direto da sociedade”, disse o presidente do conselho da Torcida Jovem do Flamengo.

Agência Brasil

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