Era de extremos

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natureza-ao-extremo-19Tempestade no Brasil, nevasca na Europa, seca na África. O ano de 2010 mal começou e o planeta padece com cada vez mais e intensas intempéries da natureza. O resultado são milhares de mortos, desabrigados e desalojados, que vivem principalmente em cidades despreparadas para suportar eventos naturais adversos. Segundo a Estratégia Internacional para a Redução de Catástrofes (ISDR, na sigla em inglês), de janeiro a novembro de 2009 foram registradas 245 catástrofes meteorológicas, que afetaram 55 milhões de pessoas e provocaram 7 mil mortes no mundo, o equivalente a 75% dos óbitos relacionados a desastres, com prejuízos de US$ 15 bilhões (R$ 26,2 bilhões).

“Não podemos atribuir esses desastres apenas ao aquecimento global, pois eles também são fruto de fatores como falta de política de desenvolvimento sustentável e uso errado de água, solo e outros recursos naturais. Não é o que desejo, mas evidências, como o aumento populacional nas áreas urbanas, a ocupação de encostas e margens de rios, a impermeabilização do solo, entre outros, mostram que mais desastres ocorrerão”, lamenta Renato Eugênio de Lima, integrante da Organização para Avaliação e Coordenação de Desastres (Undac, na sigla em inglês), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU).

Até o dia 8 de janeiro, nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, 150 pessoas morreram e 16.041 ficaram desabrigadas. Entre novembro de 2009 e 7 de janeiro deste ano, 50.456 foram desalojadas em função das chuvas, segundo a Secretaria Nacional da Defesa Civil. Em Angra dos Reis (RJ), desmoronamentos em 1º de janeiro provocaram pelo menos 52 mortes. Em São Paulo, houve recorde de alagamentos em 2009, com 1.422 ocorrências em 111 dias, sendo 124 em 8 de dezembro, segundo registros do Centro de Gerenciamento de Emergências, levantados pelo jornal “O Estado de S. Paulo”.

“São fenômenos climáticos como El Niño e La Niña, que podem estar alterando as características climáticas. Em São Paulo, em 2009, não houve seca no inverno e até enchentes ocorreram em maio. Mas não há como culpar esses ou outros fenômenos”, explica o meteorologista José Fernando Pesquero, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe). A situação deve piorar. Segundo estudo do Inpe e da Universidade de Reading, no Reino Unido, publicado em abril de 2009 no periódico “International Journal of Climatology”, o aumento

da temperatura poderá gerar, entre 2070 e 2100, 28 dias por ano com chuvas além de 10 milímetros no sudeste da América do Sul, o equivalente a 16 dias a mais do que a estimativa atual.

“O excesso de chuvas não pode ser evitado, pelo menos em curto prazo, mas os efeitos podem e devem ser minimizados. A responsabilidade é mais dos poderes públicos do que do cidadão comum, pois cabe a eles realizar um mapeamento de áreas de risco e não permitir que sejam feitas construções ali. O Brasil possui recursos e qualificação técnica para isso”, garante Jarbas Milititsky, presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS).

Se a chuva castiga as regiões Sul e Sudeste do Brasil, em dezembro de 2009 a Amazônia enfrentava a terceira maior seca em 100 anos, segundo o Serviço Geológico do Brasil (CPRM). “Existe 99% de chance de que esses eventos extremos estejam associados às mudanças climáticas. É importante evitar o desmatamento e reduzir desperdícios, acúmulo de lixo e consumo de energia, mas precisamos agora nos preparar para evitar desgraças maiores”, diz Laura Valente de Macedo, diretora regional para América Latina e Caribe da organização não-governamental (ONG) Governos Locais pela Sustentabilidade (ICLEI, na sigla em inglês).

Desde 22 de dezembro de 2009, o frio e as nevascas produzidas por um dos invernos mais rigorosos das últimas décadas no Hemisfério Norte matou mais de 120 pessoas de frio na Polônia. Pelo menos nove moradores de rua morreram na Alemanha e a temperatura mais baixa, de -45ºC, foi registrada no dia 10 de janeiro, na Noruega. “A

diferença está na capacidade dos países em responder aos eventos extremos. As cidades mais desenvolvidas, com estações bem definidas, têm capacidade melhor. Já os países africanos são os que pagam o preço mais alto”, ressalta Laura. Há pelo menos 6 anos a seca castiga o Quênia. Em 2009, o país enfrentou a maior dos últimos 12 anos e, em setembro, 3,8 milhões de habitantes precisaram de assistência para não morrer de fome, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA), da ONU.

“Se o mundo desenvolvido pode pagar bilhões de dólares para limpar o caos gerado pelos seus banqueiros, como é possível que não possa pagar milhões de dólares para limpar o caos que ele próprio gerou e que está ameaçando a sobrevivência de continentes inteiros?”, cobrou Meles Zenawi, primeiro-ministro da Etiópia, em artigo para o site da organização

internacional Project Syndicate.

“Políticos do mundo desenvolvido reconhecem a mudança climática, mas suas políticas ainda estão no século 20, fundamentadas nos conselhos de lobistas ambientalistas e de comunidades empresariais”, lamenta o pesquisador ambiental James Lovelock no livro “Gaia: Alerta Final”, de 2009. E completa: “A Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e a outros animais.”

1 COMENTÁRIO

  1. Fazendo uma analogia com o livro ” Era dos extremos “, onde o mesmo retrata acontecimentos ocorridos no período de 1789 á 1914, no livro o autor ( Hobsbawm ) relata a catástrofe da mortandade que ocorreu no século XX, e que não há outro período histórico que possa ser comparado. Naquela época, o idealismo existente na mente humana chamava-se Progresso e, naquela epoca a visão não era apenas econômica mas sim de liberdade, eles queriam a reforma do capitalismo. Com isto, ocorreram revoluções, guerras e muitas mortes.
    Equiparando com os fatos que vem ocorrendo, são semelhantes pela catastrofe humana. Porem, agora a “guerra”, que estamos vivendo é outra, o inimigo esta sendo a natureza. Mas, vejo estes acontecimentos como um aviso, creio que esta na hora de reflertirmos sobre nossas atitudes, o que esta acontecendo é reflexo de nossas atitudes. Hoje é natural jogar papel no chão, jogar latas, plásticos, pneus e outras coisas nos rios. Enfim será que agora não é o momento de voltarmos a respeitar a natureza, este planeta é a nossa casa, e por isto penso que este é momento de arrumar a casa e, talvez assim possamos dar o primeiro passo, o processo será lento, mas tenho certeza que não podemos lutar contra a natureza.
    Deixo aqui uma pergunta, você respeita a natureza ???
    Abraços;
    Patricia Guimarães

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