PT compactua com irregularidades pelo poder, diz petista

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Brasília - Senador Flávio Arns fala ao celular após a reunião do Conselho de Ética do Senado que confirmou o arquivamento de denúncias de irregularidades feitas contra Jose Sarney e Arthur Virgílio Foto: José Cruz/ABr
Brasília - Senador Flávio Arns fala ao celular após a reunião do Conselho de Ética do Senado que confirmou o arquivamento de denúncias de irregularidades feitas contra Jose Sarney e Arthur Virgílio Foto: José Cruz/ABr

Estefânia Uchôa/Gabinete do Senador Flávio Arns/Divulgação
Laryssa Borges
Direto de Brasília
Pela volúpia de se manter no poder e ter espaço para reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e alçar a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência da República em 2010, o Partido dos Trabalhadores (PT) tem jogado sua ética no lixo e compactuado com diversas irregularidades. A declaração é do senador Flávio Arns, do próprio PT, que, diante dos novos arquivamentos, com forte apoio de petistas, de pedidos de investigação contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), anuncia: “Eu fico sem mandato, mas não fico no PT”.
O parlamentar paranaense se diz envergonhado com a postura dos petistas de livrar em massa José Sarney de qualquer tipo de investigação e diz que a orientação para blindar o presidente do Senado partiu diretamente do gabinete de Lula. “Me sinto envergonhado e não posso compartilhar e dizer que está tudo bem”, afirmou. A Presidência da República não comentou as declarações do senador.
O parlamentar irá recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para garantir que mantenha o cargo de senador ainda que mude de partido. Por decisão da Justiça eleitoral, desde 16 de outubro de 2007, senadores podem ter seus mandatos cassados caso não apresentem justificativa para a troca de legenda. O TSE prevê que a mudança de agremiações só pode ocorrer em caso de incorporação ou fusão de legendas, de criação de um novo partido político, de grave discriminação pessoal do filiado ou de “mudanças substanciais ou desvio reiterado do programa partidário”.
A pouco mais de um ano do fim de seu mandato, Flávio Arns, comenta, em entrevista, as pretensões do Partido dos Trabalhadores, a aliança “não bem explicada” que a legenda cultiva com Sarney e com o PMDB, além da suposta ordem do presidente Lula para o PT ajudar a engavetar quaisquer questionamentos contra Sarney.
O senhor anunciou que vai deixar o PT por estar decepcionado com o partido. Como avalia a postura do partido nesse episódio?
Pensei que pudesse haver todo tipo de pressão. Fomos eleitos senadores e senadoras para suportamos pressões. Pressões de toda ordem existem, mas temos que estar em sintonia com princípios de ética, com o que o povo está pensando, com transparência, com investigação. Fui surpreendido pela nota do presidente do partido (pedindo para todos votarem por arquivar as denúncias contra Sarney). Isso me fez muito mal. O PT jogou a ética no lixo. O que nós fizemos hoje como partido é exatamente o contrário da filosofia, o contrário do que o povo pensa, o contrário do que a consciência indica.
O PT compactuou com irregularidades de Sarney? Por que a investigação contra o presidente do Senado não aconteceu?
O PT não pode compactuar. Na verdade, ele está pensando no processo eleitoral e, para isso, está dizendo que a investigação não deve acontecer. Isso é compactuar com o quadro atual, que não se deseja abordar em função das necessidades eleitorais do próximo ano.
O presidente Lula teve um papel na decisão do presidente do PT, Ricardo Berzoini, de determinar que a bancada votasse pelos arquivamentos?
O presidente do Partido dos Trabalhadores jamais tomaria uma decisão dessas sem consultar o Planalto. Isso é impensável. Tem que haver uma sintonia. O PT saiu em “frangalhos” desta situação, com problemas e vai sofrer muito. Perdeu credibilidade, jogou as bandeiras no lixo, e isso vai fazer muito mal ao Partido dos Trabalhadores.
Nos últimos anos, o PT enfrentou denúncias como o mensalão e outros casos. O pior que ele poderia ter feito foi compactuar agora com Sarney?
A pior coisa para o PT foi ter havido a reeleição. O processo de reeleição faz muito mal para a vida partidária, e o desejo de continuar no poder, ao invés de pensar em fazer uma boa gestão, bem discutida, dialogada, com novos parâmetros para construir uma vida política melhor e diferente no Brasil, faz que ele pense “eu preciso me coligar porque quero permanecer (no poder)”. É a ânsia do poder do PT, a volúpia do poder e isso fez muito mal ao partido.
Essa ânsia de poder fez o PT ficar refém de José Sarney e não poder abandoná-lo agora?
Não havia necessidade dessas coligações que não são bem explicadas. Todos os projetos de lei que vieram para o Senado e que foram bem discutidos com a sociedade foram aprovados integralmente: reforma do Judiciário, reforma da Previdência, Lei de Falências. Só o desejo do poder é que faz que haja certas coligações quando todos nós esperávamos nova perspectiva na vida política. Estamos tendo uma chance histórica – a sociedade toda está acompanhando – temos uma chance monumental de se criar novos hábitos na vida política. E o PT disse “não, não queremos, queremos que continue tudo como está”.
O PT está dependente de Sarney porque está pensando em 2010 e na eleição da ministra Dilma?
Não diria dependente de Sarney, mas ele (o partido) acha que é dependente do PMDB. É uma ilusão achar que a sociedade vai perdoar um equívoco dessa natureza (votar pelo arquivamento dos questionamentos contra Sarney).
A sociedade deveria punir o PT por ter se omitido no processo de investigação do presidente Sarney?
Penso que a sociedade, sem dúvida, está muito decepcionada com o que aconteceu. Espero que fique muito decepcionada mesmo e que reflita sobre essa decepção.
Redação Terra

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